sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Fanzine do CACOFF



Informativo feito para recepção dos Calouros da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação pelo Centro Acadêmico de Comunicação Florestan Fernandes - CACOFF

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Na Alegria e na Tristeza

Esqueci as discussões da faculdade, as divergências entre políticos, as vítimas das enchentes de São Paulo e Niterói.
Não me considere um alienado: elas também se esqueceram, por noventa longos e torturantes minutos, que em algum momento uma chuva lhes destruíra as posses de toda a vida. Não os considere alienados: a catarse, a fantasia que inspira flagelados pobres e semi-letrados também embriaga abastados pós-doutores.
É que hoje o meu time jogou. O time dos flagelados e dos pós-doutores também. Para quarenta mil torcedores fanáticos ou para doze reclamões em um estádio, com cobertura de vinte câmeras da maior rede de televisão aberta do país ou pela narração de um radialista rouco da rádio da comunidade, o fato indiscutível é que o meu time, o time deles, o seu time entrou em campo.
Este fato elimina a lógica, a coerência, o bom senso. No estádio, nos bares, na sala de estar de cada casa brasileira, gargantas dão o máximo para mostrar que, do lado de cá do alambrado, não há tripa que não ajude a garganta a incentivar ou cobrar a equipe. E daí que eles não ouvem? É o nosso jeito de jogar por eles. É por aqueles onze carregando o brasão e o nome do clube que suor, lágrimas, todo fluido corre o corpo do torcedor por noventa minutos.
Enquanto o relógio não fecha a volta, e o juiz não encerra o jogo, o corpo em transe não responde a nada que não venha de dentro do gramado.
Aficionados, esperançosos desesperados, hipnotizados hiperativos, Crianças.
Crianças que sonham em entrar em campo e decidir o jogo, que não tem outra preocupação senão o resultado da partida. Crianças que cantam sorridentes pra incentivar seu time, que choram descrentes as dolorosas derrotas. Crianças por noventa minutos; crianças, desde pequenininhos.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Entrando em campo


Não tem jeito. Intelectuais que se ofendam, se alguém fala em futebol, fala do Brasil . O inverso é inevitável, e perfeitamente coerente: aqui se nasce de chuteiras, é um lance cultural, quase genético. O Brasil não é todo futebol, mas o futebol está em todo brasileiro.
Quando falo de chuteiras, falo do modelo caro e cafona, divulgado por uma paquita do Real Madrid ou um craque do Barça, a ser calçado por um filho de magnata da zona sul de São Paulo sem muita vocação para o esporte, mas também da lama de várzea que encobre os pés de um filho de pescadores no Piauí que traz no sangue a habilidade que nos trouxe cinco copas do mundo. A disparidade social do país fica suspensa enquanto a bola estiver rolando.
Os politizados que se revoltem, mas o esporte não tem nada que ver com a desigualdade. A indústria que fizeram dele, sim. Mas quando o país para pra ver a final do Brasileirão, não é essa indústria a responsável pelo fenômeno, é o esporte. Ou melhor, a paixão que ele move.

Fanáticos que vejam sacrilégio onde não há, mas essa paixão, essa religião do futebol é a tradução do sincretismo brasileiro. Os apóstolos em combate, a entidade maligna que sopra o apito e uma redonda divindade que, vaidosa e imprevisivelmente, decreta a cada rodada quem vai pro céu ou para o inferno, formam o panteão, adorado por centenas milhares de fiéis. Os praticantes sempre dão um jeito de comparecer aos templos, seja no final ou no meio da semana, seja perto de casa ou fora do país.
O futebol é a marca mais abrangente da cultura tupiniquim. Maior que o samba, que as manifestações regionais, que o folclore, quase maior que a abrangência da Globo. É preconceito e "pseudointelectualismo" negar-lhe essa característica. E sem reconhecer o cidadão brasileiro como ele é, e ignorar o traço mais marcante de sua cultura, é impossível compreender o Brasil. Pena que tantos fazem questão de desprezá-lo. Que se pode fazer? Bola pra frente, que o nosso time tá ganhando!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009


Grupo hasteia Bandeira do lirismo dos bêbados nas ruas de Bauru

Não se surpreenda caso encontre no pára-brisa de seu carro um bilhetinho azul com um poema de Maiakovski ou Fernando Pessoa, nem se por acaso vir alguém declamando versos de Vinícius de Moraes em plena Praça da Paz.
A partir das primeiras semanas de maio, um grupo de estudos, IN-vazão poética, passará a divulgar poemas nas mais variadas e inusitadas formas, pela cidade de Bauru, principalmente no campus local da UNESP.
Coordenado pela Professora Doutora Maria do Carmo Almeida Corrêa, do Departamento de Ciências Humanas da universidade (CHU), o grupo tem a pretensão de difundir a literatura, sobretudo na forma de poema e de conto, tanto para os universitários quanto para a população em geral, que tem um menor contato com esse tipo de produção artística.


O grupo é formado principalmente por graduandos dos cursos de Comunicação da Unesp, mas aceita qualquer pessoa como membro, basta que se goste de poesia e que se compareça às reuniões todas as quintas-feiras, às 17h30. Nesses encontros, divulgam-se idéias e projetos para a divulgação das obras de grandes escritores, de poetas menos conhecidos, e também, obras de autoria dos próprios membros. Esses planos são analisados e, então, idealizadores e entusiastas juntam-se para desenvolvê-los.




Entre os projetos atuais, está a emissão de 500 folhetins de 12 páginas, nos quais serão encontradas obras consagradas em meio a novos poemas e contos de “amadores”, num formato bastante criativo, que serão distribuídos por regiões movimentadas da cidade.
Um outro projeto, um tanto mais ousado, pretende entregar pequenos recortes com versos famosos, com temas variando entre a sátira e o lirismo. A ousadia está na forma de entrega: os recortes serão pregados nos carros, colocados nas bolsas, colados nos coletivos, entre outras formas, sem limites para o absurdo.


O grupo IN-VAZÃO POÉTICA engaja a popularização da poesia, e propõe a leitura às pessoas cuja rotina as impede ou as distancia desse prazer. E a etiqueta em locais públicos não parece atrapalhar, não se assuste caso ouça alguém no ônibus, sem qualquer motivo aparente, dizer em alto e bom tom que "Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente...".
Entre os vindouros projetos do grupo, há a produção de um folhetim com tiragem de 500 exemplares, que trará impressos versos dos grandes autores da poesia nacional e poemas de aspirantes na carreira. A proposta do impresso, além da divulgação de novos poetas, será a aproximação dos públicos a uma poesia distinta daquela consagrada, como os sonetos de Camões. Estarão presentes, entre outros, o lirismo de Vinícius de Moraes, o escárnio de Gregório de Matos, a irreverência de Bocage e o ceticismo de Augusto dos Anjos, seja nos poemas que escreveram, ou pela influência que exercem nos poetas das gerações que os sucedem.


Eventos em conjunto com o curso de relações públicas da FAAC, faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, e com a FEB, faculdade de Engenharia de Bauru, unidades da Universidade Estadual Paulista, também estão na pauta do grupo, que desenvolve diversas atividades com a poesia, desde a seleção de poemas para exposição em murais à declamação de sonetos ou odes, sempre com o intuito de colorir a alma das pessoas, seja com o azul triste de Manuel Bandeira ou com o verde alegre de Alberto Caeiro
.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

PREFEITURA ADIA DECISÃO SOBRE ESTAÇÃO CIÊNCIA

Agenda apertada faz prefeito e vice cancelarem encontro com a comissão do projeto


A segunda reunião da prefeitura de Bauru com a comissão de estudos da Estação Ciência precisou ser adiada. O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) e sua Vice, Estela Almagro (PT), compromissados com a Oficina de Gestão Pública, que contou com a presença do ministro das cidades Marcio Fortes de Almeida, não puderam dar atenção devida ao assunto e tiveram que postergar o encontro.


A comissão é formada por 20 membros e possui representantes das Secretarias da Educação, Cultura e do Desenvolvimento Econômico. Segundo a assessoria da prefeitura, a comissão tem se mostrado bastante favorável a instalação do projeto na cidade. Ainda assim, a decisão só deverá ser confirmada na próxima reunião, ainda sem data prevista, quando prefeitura também discutirá a realização de uma semana nacional sobre Ciência e tecnologia em Bauru.


crédito: Assessoria de Imprensa de Santo André
O projeto Sabina - Parque do conhecimento, em Santo André, é um exemplo de como os parques estimulam o aprendizado, tendo recebido mais de 160 mil visitantes desde sua inauguração, em 2007. A ex-monitora do parque Adriane Borges Mendes, explica a relação com os visitantes do SABINA : "As crianças vem em grupos escolares durante a semana, com acompanhamento dos monitores, e trazem os pais no sábado e no domingo, quando o parque é aberto ao público em geral".

sábado, 16 de maio de 2009

Enquanto o trem não passa


"Saudosa Maloca, Maloca querida, dim dim Donde nóis passemos os dias feliz da nossa vida." Esses não são os versos com os quais Adoniran Barbosa imortalizou minha terra natal. Todavia, a letra de Saudosa Maloca diz bem mais sobre o que sente um Jaçanaense "fora de casa", posto que desde meados dos anos 60 o "Trem das Onze" não passa mais por lá.

Burocraticamente, apesar de ser conhecido como o bairro da premiada canção do sambista, Jaçanã é na verdade um distrito, e entre os bairros que o constituem está a Vila Constança, onde morei por doze anos, quase até o final do último verão.

Não é das regiões mais badaladas de São Paulo. À exceção das avenidas principais, o Jaçanã em pouco lembra a grande metrópole e, até onde esse distanciamento é possível, pode ser considerado um distrito bastante pacato.

Infelizmente, e como não poderia deixar de ser, o Estado não é muito eficaz na região, o que pode ser observado pela qualidade do asfalto e pelos sistemas de saúde e educação. A infraestrutura desses sistemas existe, mas não há manutenção, só inaugurações e recapeamentos.

O Jaçanã fica na Zona Norte da capital paulista, na fronteira com o município de Guarulhos. Como os bairros são residenciais em sua maioria, a população local segue a rotina padrão da periferia de São Paulo: acordar cedo, utilizar-se do transporte público pra ir ao trabalho, voltar pra casa as seis horas da tarde em horário de pico. Pra fazer a migração pendular de cada dia, os jaçanaenses se afunilam em direção a estação de metrô Tucuruví, enfrentando o indigesto engarrafamento da avenida Guapira.
Pracinha do Jaçanã

O trânsito é talvez a marca paulistana mais forte no distrito que possui praças onde ainda é possível reunir os amigos para tocar violão ou jogar damas. Ameno, o Jaçanã é o lugar pra onde volto, sempre que as lembranças deixam de ser suficientes pra matar a saudade que sinto longe de casa.

Saudades do "bairro" que inchou com o município, mas que preservou seus símbolos: A Igreja de Santa Terezinha continua sem cadeiras suficientes para o grande número de fiéis que aparecem aos domingos; o time do Clube Guapira se mantém como grande esperança jaçanaense no esporte (torcemos muito: quem sabe o time acesse a alguma divisão relevante do campeonato paulista e possamos ver grandes clubes paulistas jogando perto de casa?); o centenário Hospital Geriátrico e de Convalescentes D. Pedro II ainda é conhecido apenas como Asilo dos Inválidos e mantêm seu funcionamento regular.

Já que chegamos ao Asilo, descansemos um pouquinho. Logo Dona Ema virá conversar conosco. Uma senhora já com suas 93 primaveras que cuidou sozinha dos filhos e teve uma série de outras dificuldades, as quais superou com muita disposição e trabalho. Não se engane, Dona Ema vem visitar o Asilo. Como ela diz, vem cuidar dos velhinhos, rezar um pouco com eles, conversar com o pessoal que trabalha aqui e que sempre a trata muito bem. E vem pra cá caminhando pelas calçadas desniveladas e estreitas, apenas com o auxílio de sua sombrinha, com uma vitalidade contrastante com as rugas de sua mão, mas em prefeita harmonia com seu sorriso.

Desculpe-me. O devaneio que a nostalgia e o adiantado da hora me fizeram sentir-me de novo na estação onde não passam mais os trens de Adoniran. Espero que fique com essa imagem quase onírica resgatada por minha saudade. Espero que também ouça o apito que chega á gare, hora de partir.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O impossível nas costas há 94 anos

Diz-se em todo o mundo que Angelina Jolie é uma mulher muito generosa. Não à toa, posto que corram à boca não muito discreta as nababescas somas doadas pela musa às causas sociais.

Consideremos então que ser generoso é doar muito daquilo que se tem, mesmo que de sobra.Sendo assim, uma antiga passageira do trem das onze, a simpática Dona Emma, equipara a multimilionária atriz ao Tio Patinhas neste quesito. Uma figura notável nas vizinhanças do Jaçanã, apesar de sua arqueada estatura não superar metro e meio, se tanto.

Como se encontrá-la numa esquina de Bauru fosse possível, lembro-me do ruído do choque entre o chão e a gasta ponta metálica do guarda-chuva que serve de apoio a Dona Emma para suas diárias caminhadas matinais. Com terna saudade, imagino cruzar-lhe o caminho e pararmos para conversar um pouco, indiferentes ao desespero apressado do mundo, como era de praxe dos meus sábados.
Conheci Dona Emma num dos seus dias de caminhada, e desta data já nos afastamos mais de uma década. Supunha que caminhasse para manter a saúde, seguindo alguma orientação médica. Era plausível, aparentava uma idade avançada, que naturalmente requer especiais cuidados.

Dona Emma é amiga de minha mãe. Conheceram-se nas missas, muito católicas ambas. Sorridente, puxou conversa com um "Bom dia!", produto em escassez na metrópole. Respondi-lhe por educação e, como se fosse conseqüência natural de um comentário gentil, conversamos por cerca de duas horas. A prosa tornar-se-ia uma rotina, a partir dessa data.

Dona Emma fala bem. Não é uma questão de retórica: teve pouca educação formal, ainda que sua inteligência seja facilmente percebida; tão pouco sua voz sugere alguma atenção especial, posto que sua orgulhosa idade se faça notar também pelo som das tão usadas cordas vocais. Escutá-la é encantador justamente pelo vigor que apresenta. A rouquidão não a impede de contar suas tantas histórias.

Em tempos de crianças que saem adultas dos jardins de infância, a doce velinha representa a pureza que a contemporaneidade sacrificou.
Nas conversas que tinha com Dona Emma, ia descobrindo um pouco mais de sua história, que criou sete filhos sem a ajuda do marido alcoólatra, superou dificuldade de trabalhar e sustentar a prole, mesmo com o parco estudo e contra os preconceitos da sociedade da primeira metade do século XX, que não os escondia tão bem como faz a atual, e nem pretendia escondê-los.

Não foram poucas as vezes que doutores estimaram o fim das histórias de Dona Emma. Uma gravidez delicada, um grave acidente na cozinha que lhe queimou um quarto do corpo, um estômago de funcionamento tão lento que a impede de comer muito mais que um pássaro, entre outros revezes, quase regulares, dão aos médicos o perdão pelo prognóstico equivocado; à Dona Emma, apenas enriqueciam-lhe o acervo de surpreendentes histórias.

A mais impressionante passagem da vida de Dona Emma, no entanto, acontecia diante dos meus olhos. Aquela senhora não caminhava por designação médica. É muito cética à ciência. E depois de desmenti-la tantas vezes, seu ceticismo merece respeito, autoridade até.

Donna Emma não caminha apenas aos sábados. Faz o mesmo caminho diariamente, com exceção os domingos e feriados, quando o trajeto ao Hospital Geriátrico e de Convalescentes D. Pedro II era trocado pelo da Igreja de Santa Terezinha, onde se reunia grande parte da vizinhança, predominantemente católica.

Dona Emma supera diariamente quase um quilômetro de terreno acidentado até o Asilo dos Inválidos (nome original do Hospital) que, segundo a lenda e a qualidade das instalações, foi construído na época do império

Com o mesmo sorriso que Dona Emma me conta satisfeita do seu dia, chega ao asilo para ajudar os funcionários a, como ela mesma diz, cuidar dos “velhinhos”.

São pouquíssimos os enfermos e idosos com mais de noventa anos. A maior parte tem seus setenta. Todos com histórias impressionantes sobre carreiras de sucesso que ruíram, outros que amaram até que a promessa do altar fosse consumada, boêmios veteranos, que consumaram a vida nos prazeres da noite e hoje, nos leitos da instituição, aguardam a visita de parentes ou de Caronte. Muitas vezes a visita dos primeiros só ocorre momentos antes ou logo após a visita do barqueiro da mitologia. Para alguns, nem essa ocasião lhes permitirá rever seus familiares.

É por amenizar a carência dos enfermos e dos velhinhos que Dona Emma é tão brilhantemente generosa. Vai ao hospital levar companhia e carinho a pessoas tão fragilizadas pela perda de vitalidade ou de esperanças. Vai tratar das dores da alma dos internos, tão mais cruéis que as do corpo, tratada pelos médicos.

A solidariedade de Dona Emma ajuda a explicar como ainda existam pessoas que utopicamente acreditem em um mundo melhor. O altruísmo dessa senhorinha, que parece aumentar a cada página de calendário que destaca, prova que ainda há pessoas essencialmente boas no mundo.